04 setembro 2006

"Eu desejo, eu desejo"

Olha o texto que eu li hoje no site www.garotasquedizemni.com.br. Chama-se Eu desejo, eu desejo.

"Desejo sim que você tome uma baita chuva um dia desses. Daquelas tipo catarata, que molha até o espírito. Que encharque os sapatos e escorra pela testa. Assim quem sabe o compromisso chato que estava agendado possa ser cancelado. E você tenha uma grande desculpa para passar o restante da tarde debaixo do edredom, simulando uma constipação e assistindo "Top Secret".

Desejo que seu carro passe um dia na garagem. Nada grave, que custe fortuna para arrumar. Um pneu furado, talvez. E então você vai apanhar um ônibus, ter tempo para pensar na vida ou escutar as conversas mais engraçadas entre adolescentes. Quiçá encontrar um amigo de longa data que faz o mesmo trajeto. Quiçá conhecer o amor de toda a sua vida.

Desejo que seu chefe te dê uma bela comida de rabo. Daquelas que ecoam pelo andar todo, fazendo a secretária verter uma lágrima de pena. E que você saia da sala com tamanho ódio do sujeito que finalmente passe a mão no telefone, faça o contato, marque a entrevista, consiga a vaga. E mande o abusivo filho da mãe pastar – também ecoando por todo o andar.

Desejo que acabe o leite bem na hora do seu desjejum. E que, na pressa, você seja obrigado a beber o café puro, sem açúcar. Para daí então lembrar da sua avó, que só bebia a pretinho assim, enquanto te ensinava a fazer bolinho de chuva, e depois batia corda na calçada, e depois defendia seu lado junto à mamãe. Que a lembrança daquela doce mulher faça o seu dia especial.

Desejo que o computador pife bem na metade do e-mail gigantesco e complexo que você estava escrevendo. E que, depois de ficar bem puto com o apagão, você tenha chance de refletir melhor sobre o que digitava. Pondere, reveja, pense com mais tempo. Às vezes é bom começar de novo sem a febre do momento, de modo que a gente não diga o que não queria dizer de verdade. E que ia causar muito arrependimento mais tarde.

Desejo que uma criança de rua se aproxime da sua janela automotiva com o semblante de quem não tem nada a perder. E desejo com muita força que, após seu susto, ela pergunte se você quer comprar bala de uva. Assim, com um sorrisão lindo, mostrando que não é preciso subir o vidro na cara alheia – e que a situação pode estar ruim por aí, mas a confiança no próximo não precisa morrer.

Desejo que sua sogra telefone às 8h15 do domingo, diga qualquer tolice, mande um beijinho pro filhinho bonitinho dela (que nem está no país) e desligue o aparelho. E que assim você possa levantar mais cedo, vestir um traje folgado e cair no mundo, aproveitando o pão fresco da padaria, o início da feirinha de artes, o sol gostoso da manhã.

Desejo que apareça uma goteira no teto da cozinha, um rato na lavanderia, uma marca de pé na parede da sala, um furo na sua meia. E que ao subir no telhado para ajeitar as telhas, ao perseguir o Mickey, ao mudar a cor do recinto e cerzir o buraco, você sinta paixão por si mesmo, pelas coisas que conquistou, pela independência de ser Rei de Sua Residência. Uma residência quase caindo aos pedaços, mas toda sua.

Desejo uma grande desilusão amorosa, apesar disso não ser nada desejável. Mas se dessa forma uma lição for aprendida, que seja. Que destroce o coração de uma vez – e depois venha um convite do tipo "eu soube que sua namorada... bom, acontece, né?... quer sair comigo e minhas amigas hoje de noite?". Se nada é ruim como a perda de um amor, nada também é melhor do que encontrar outro.

Desejo que seu time perca de 8 a 0 para o maior rival. E que após ouvir 79 piadas grosseiras e infames, você sinta seu grande amigo bater no ombro, dar uma risadinha e dizer: "timinho de merda o nosso, hein?". Para, logo depois, combinar uma rodada de cerveja, onde vocês podem desferir ofensas aos jogadores, comissão técnica, juízes e adversários. Desobstrui o fígado que é uma beleza.

Desejo tudo de ruim e tudo de bom, porque quase tudo traz uma maneira de evoluir. Ah, e desejo que tudo o que você deseja aconteça em dobro. Mas que demore um pouquinho, para dar o gosto de uma verdadeira alegria."

Este texto não é óóóóótimo???

3 comentários:

Luzinha disse...

Também gostei muito,tanto que li 2x...hahahahaha
beijao Play!

Flavia Ladvocat disse...

Patry
eu ainda não li todo o seu blog, mas estou deixando um recadinho pra dizer que amei, tá?
Tá lindo demais!
Beijinhos
Flavia Ladvocat

Larissa Popp disse...

adorei! é um texto cheio de prazeres do tipo "Amelie Poulain" - adoro esse filme! Bjo!